Hora de publicar os rascunhosNum domingo acordou e sentiu que não queria mais. Aquela angústia que vinha remoendo seu peito há três anos havia simplesmente desaparecido, assim, sem mais nem menos. Mentira. Eram muitos os mais. Motivos não lhe faltavam para tomar essa decisão. Mas então porque será que demorou tanto tempo? "Ensaiei isso tantas e tantas vezes e agora a solução me vem assim, do nada?" Não é justo. Puxou novamente o lençol e o edredom - algumas pessoas simplesmente não conseguem dormir sem se cobrir, mesmo nos dias quentes - para tentar embalar o sono, mas não. Agora que a angústia havia passado, era preciso agir. Era preciso agarrar a oportunidade.
Tem dias em que o amor morre. Este escolheu um domingo ensolarado de janeiro. Deve ser um dia bom pra acontecer esse tipo de coisa. Não há trabalho, pode-se ter todo o tempo do mundo para resolver como será o enterro e o discurso. É tempo de férias, nem trânsito há para atrapalhar o percurso. Além disso, um dia de sol faz até com que a situação pareça menos horrorosa.
Depois de pensar em como faria tudo, levantou e foi direto comer alguma coisa. Nada lhe tira a fome, nem as tristezas nem as alegrias - talvez por isso os regimes não funcionem. Este seria o momento ideal para emagrecer uns bons três ou quatro quilos. Mas não. Até porque, a decisão não necessitou esforço algum. Ela veio pronta. Simples assim. Bora comer mais um pão com requeijão.
- Oi, bom dia.
- Bom dia, amor.
- Você ainda está dormindo? Vamos sair.
- Vamos. Você passa aqui?
- Ok. No horário de sempre.
Meias brancas, botas e o vestido preto. Mais uma vez o mesmo caminho, os mesmos semáforos sempre fechados, os mesmos panfletos de imobiliárias. Tudo aquilo que sempre a fez sentir pontadas de irritação do lado esquerdo do peito não causaram coisa alguma. É como se o seu coração e seus nervos estivessem anestesiados. "Eu já achava que era frígida, agora ganhei um coração de pedra. Os gatos eu já tenho, agora só me falta ser tia e ficar velha".
Como era estranho ficar assim, vazia. Vazia de amor, de raiva, de rancor, de brilho no olhar. É, porque se encontraram e só assim ela percebeu que o olho no olho já tinha ido embora há tempos. Fez as malas e foi pra bem longe há uns seis meses. Disse que não volta tão cedo.
- Sabe, eu acho que não dá mais.
- [Silêncio] É, você deve ter razão.
Como assim? Foram tantas as conversas que já tinha elaborado na cabeça e tudo se resolve assim, em cinco minutos?
- Amiga, já resolvi.
- Sério? E como você está?
- Bem. Estranhamente bem.
- Vem pra cá, vamos tomar uma cerveja.